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Alavancagem saudável ou bomba-relógio: como diferenciar dívida estratégica de dívida tóxica?

  • Foto do escritor: Pedro Pimentel
    Pedro Pimentel
  • 12 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura

Poucas palavras podem causar tanto desconforto entre empresários quanto “dívida”. Para muitos, ela ecoa como sinônimo de risco e fragilidade. Mas a realidade é consideravelmente mais complexa: a dívida pode ser tanto uma alavanca estratégica de crescimento quanto uma bomba-relógio prestes a explodir. A diferença entre um cenário e outro não está no volume de recursos captados, mas no propósito, na disciplina de gestão e na capacidade de gerar caixa para honrar compromissos atrelados ao endividamento tomado. Em resumo: dívida boa financia vantagem competitiva e vem acompanhada de um plano claro de saída; dívida ruim financia buracos operacionais e aumenta o risco a cada dia.


Dois casos recentes no mercado brasileiro, detalhados a seguir, ilustram bem esse contraste. De um lado, a Suzano, que elevou sua alavancagem para adquirir a Fibria e financiar novos projetos, mas o fez com disciplina, política clara de limites e proteção cambial, transformando a dívida em combustível para fomentar seu crescimento. Do outro, a Oi, que levantou passivos bilionários para cobrir déficits operacionais e alongar prazos sem corrigir os problemas de base, caindo em um ciclo de renegociações e sucessivas perdas de credibilidade.


Case da Suzano: dívida como combustível de crescimento

A Suzano é um exemplo de como a alavancagem pode ser saudável. Em 2018, a companhia fez a maior aquisição já registrada no setor de papel e celulose ao comprar a Fibria, operação que consolidou a Suzano como líder global. Para financiar a transação e o posterior Projeto Cerrado (nova fábrica no MS), a empresa elevou seu endividamento, mas sempre dentro de uma política clara e de conhecimento de todos: manter a alavancagem abaixo de 3,5x dívida líquida/EBITDA.


No auge da integração, a alavancagem chegou perto desse teto, mas a empresa seguiu uma rota disciplinada de desalavancagem. No segundo trimestre de 2025, por exemplo, mesmo após bilhões investidos em expansão, a alavancagem em dólar estava em 3,1x (portanto, abaixo do limite), com geração de caixa de R$ 4,5 bilhões no trimestre. Outro pilar fundamental foi o hedge (isto é, uma forma de proteção financeira, um seguro financeiro) natural: como a maior parte das receitas da Suzano é em dólar, sua dívida também foi majoritariamente dolarizada, reduzindo o risco de descompasso cambial.


O aprendizado é claro: dívida pode ser transformada em combustível estratégico quando há disciplina, transparência e um plano consistente para geri-la ao longo do tempo.


Case da Oi: dívida como círculo vicioso

No extremo oposto, a Oi se tornou símbolo de alavancagem tóxica no Brasil. Em 2016, a operadora entrou em recuperação judicial com uma dívida de R$ 65 bilhões, o maior processo do tipo já visto no país. Sete anos depois, em 2023, voltou à Justiça com novos passivos de R$ 44 bilhões.


Diferentemente da Suzano, o endividamento da Oi não financiava projetos de crescimento, mas sim déficits operacionais, multas regulatórias e investimentos fragmentados, sem estratégia clara e consistente. A companhia sofreu também com um descompasso entre moeda e fluxo: boa parte da dívida era em dólar, mas sua receita estava majoritariamente em reais. Em meio à desvalorização cambial, o serviço da dívida (isto é, o valor total, composto por juros e amortização, a ser pago para honrar dívidas) explodiu.


A cada renegociação, covenants eram “esticados” e prazos alongados, mas sem trajetória real de desalavancagem. O resultado não foi surpresa para ninguém: perda de credibilidade, fuga de investidores e uma espiral de crises que corroeu o valor da companhia. Nesse caso, a dívida não era combustível, era oxigênio de curto prazo para manter uma operação que já estava sufocada.


E para você, empresário, resta então a pergunta prática: como saber se a dívida que você tem hoje é estratégica ou perigosa? Aqui vai um checklist com 6 sinais de alerta aos quais você deveria se manter atento/atenta:


  1. Dívida líquida/EBITDA em alta, sem rota de queda definida;

  2. Serviço da dívida (juros + amortização) maior que a geração operacional de caixa;

  3. Dívida em moeda diferente da receita, sem hedge (proteção) cambial;

  4. Covenants contratuais sendo ajustados constantemente para evitar default (inadimplência);

  5. Investimentos de manutenção (CAPEX básico) sendo adiados para pagamento de juros; e

  6. Alongamentos sucessivos de prazos de dívida sem redução efetiva do saldo devedor.


Se ao menos dois ou três desses pontos se aplicam à sua empresa, há um risco real de que sua alavancagem esteja mais próxima da bomba-relógio do que da alavanca estratégica.


Em resumo, os casos da Suzano e da Oi mostram que a dívida em si não é boa ou ruim. Dívida pode ser combustível ou veneno. Quando bem estruturada, financia expansão, modernização e vantagem competitiva. Mas quando usada para tapar buracos operacionais, vira uma bomba-relógio que ameaça o caixa, corrói margens e destrói valor. O que a define é o propósito (crescer ou sobreviver), a disciplina de gestão e a capacidade de gerar caixa.


Na Equus Capital, acreditamos que o endividamento consciente deve ser um poderoso aliado estratégico, nunca uma inércia paralisante. Por isso, ajudamos empresas a diferenciar dívida saudável de dívida tóxica, estruturando planos de alavancagem com disciplina, métricas claras e rotas de desalavancagem bem definidas.


No fim das contas, não é o tamanho da dívida que define o futuro da sua empresa, mas a forma como ela é usada e gerida: a dívida inteligente acelera o seu crescimento, enquanto a dívida mal conduzida pode comprometer toda a sua jornada até aqui.


E você? Na sua empresa, a dívida está sendo tratada como motor de crescimento ou como anestesia temporária para um problema estrutural?

 
 
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